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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O que deu nos meus pais?

Legenda para cego: Menina chorando, a lagrima escorrendo pela bochecha, os olhos apontando para o céu como em suplica.
Por Rebeca Pontes

O que está acontecendo? O que deu em meus pais? Porque tantas brigas? A minha tia da escola não diz que é importante o amor dentro da família? Eu acho que amor não é isso, essas discursões, eu sinto medo quando elas acontecem. Eu sinto muito medo. Principalmente quando a mamãe chora, ou quando o papai sai para beber, e eu nem entendo porque, as vezes quando ele saí, ele volta mais irritado ainda.
E sempre que a mamãe e o papai brigam eles ficam com raiva de mim sem eu nem ter feito nada. Eu sou quietinha, quase nunca desobedeço, e se eu desobedecer eles brigam muito comigo, batem em mim. Eu sei que é errado ficar desenhando e derrubar um pouquinho daquele farelinho que sai quando aponta o lápis, mas eu juro que foi sem querer quando isso aconteceu, eu até tentei explicar para a mamãe, mas ela disse que eu era uma porquinha.
Outro dia eu tava sentada na frente de casa e a Malu, minha amiguinha me chamou para brincar, estávamos correndo muito rápido e foi muito legal, eu ganhei quase todas as corridas. Mas eu caí, eu ralei meu joelhinho e doeu tanto, tanto, tanto. Eu chorei, o papai tava voltando para casa do trabalho e me encontrou, eu falei para ele que tava doendo, pedi para ele me colocar no braço, eu ainda sou levinha. Mas ele me mandou ir andando e foi brigando comigo para eu ir mais rápido, só que eu não conseguia porque tava doendo.
Quando chegamos em casa, meus papais brigaram comigo, disseram que eu era muito chorona e que era para eu parar de drama. A mamãe começou a ficar muito brava e o papai começou a brigar com ela e depois me mandou ir para a calçada porque não aguentava mais ouvir meu choro.
A Nana, nossa vizinha me viu na rua, ficou com muita raiva dos meus pais e com pena de mim, ela me chamou para ir na casa dela e cuidou do meu machucado. Ela disse que tinha entrado uma farpinha no meu machucado e por isso tava doendo tanto e foi só ela tirar que parou de doer, ela botou um remedinho também, ardeu um pouco, mas parou rapidinho.
Ela disse que isso logo, logo ia parar, essas brigas e que meus papais não iam mais gritar comigo ou bater em mim. Porque não parou ainda? Eu não gosto quando isso acontece, não gosto mesmo. E agora eu estou com medo, muito, muito medo, parece que eles estão ficando toda hora um pouquinho mais bravos, a mamãe está gritando muito e o papai também. E eles estão vindo para perto do meu quartinho, e eu estou ficando com mais medo ainda, eu só queria que aquilo que a Nana disse acontecesse, eles parassem.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Por quê?

Legenda para cegos: ilustração de um pai caminhando com o filho de mãos dadas, acompanhados pela ausência de respostas e a quantidade absurda de perguntas

Quem nunca se sentiu acuado ou ficou sem respostas para uma pergunta de criança. E como elas gostam de perguntar, de saber sempre mais. A curiosidade e as duvidas sobre tudo fazem parte da vida dos pequenos e isso é profundamente saudável. Em 2002, por exemplo, surgiu e fez muito sucesso a música “Por quê?” interpretada pela, na época cantora e apresentadora infantil, Xuxa Meneghel. A música brincava com a curiosidade e a sede de conhecimento presente nas crianças por meio de perguntas lúdicas e termina com a frase “Use a palavra Por que” que busca incentivar esse hábito. Na crônica de Rodrigo Nunes, vemos o relato de um filho questionando o pai sobre varias coisas e lemos as respostas do pai, tudo narrado por alguém que está observando a cena, mas não participa do diálogo. A crônica nos leva a refletir sobre a importância da curiosidade e dos questionamentos da criança, bem como a necessidade da paciência dos seus responsáveis para respondê-los. Faz pensarmos sobre o valor da criatividade na infância, dos sonhos e do imaginário infantil.


(Rebeca Pontes)


Me deixa ser criança só mais um pouquinho, nem que seja só por mais um dia?

Legenda para cegos: Legenda para cegos: Quatro crianças correndo atrás de uma bola, duas meninas ao centro e dois meninos nas pontas. Ao fundo gramado e árvores 
Por Rebeca Pontes

Creio que uma das melhores coisas do mundo seja ser criança. E talvez uma das melhores sensações seja a de fechar os olhos e relembrar de todos os momentos bons. Lembrar das brincadeiras de pique, das diversões nos parquinhos, das idas ao circo, da escola, dos passeios da escola (essa é uma das melhores partes), das brincadeiras com os amigos, irmãos, primos e vizinhos, dos desenhos na TV, dos jogos de tabuleiro e dos de videogame, também. Lembrar dos picolés, pirulitos, chicletes, da comida da vovó, das histórias do vovô, dos aniversários, da água gelada tomada escondida dos pais por conta de uma gripe. Lembrar das gripes, também, da mamãe mandando limpar o nariz, ou tomar nebulização, dos xaropes (menos dos de cereja ou tutti-fruit que sempre eram os piores e o médico insistia em dizer que era docinho e gostosinho, mas nunca eram, nunquinha), das quedas e arranhões, dos braços, pernas e dedos quebrados, talvez dos pontos, ou daquela cicatriz que ficou. Certo, talvez essas últimas lembranças não sejam tão boas, mas a maioria foram resultados de momentos bons.
        E ai você percebe que vão passando os anos, que aquela criança já não queria mais brincar apenas. A criança começa a querer conhecer o mundo, desvenda cada dia melhor a internet, começa a querer namorar e como é impossível esquecer o primeiro amor, lembro com carinho do dono do meu primeiro selinho e da minha primeira paixão mais intensa, e olha que nem era tão grandinha assim, mas já chorava por amor. Isso, surge o amor, aquele sentimento que “É fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é contentamento descontente é dor que desatina sem doer” como diria Camões, surge o amor que constrói e destrói tanta coisa e que é protagonista de tantas aventuras, que a gente acha que é para sempre, mas quase nunca é, pelo menos não nessa idade. Mas acreditamos no amor, fielmente, isso faz muita falta.
        Ainda se é tão verdinho e ainda se tem tanto à amadurecer, mas já se quer ser gente grande. Chega a hora que achamos que sabemos tudo sobre o mundo, que resolvemos enfrentar os nossos pais e viver nossa independência precoce. Meu Deus, se era nesse momento que eu sabia de tudo, me faz voltar àquela época, pois agora eu já não sei mais de nada. Olho ao redor perdida e cansada e atualmente não me encontro assim por ter me afastado demais de uma brincadeira de pique ou de uma trilha, daquelas que tem em toda colônia de férias. E é nesse momento que a dúvida chega com mais vigor, porque o tempo passou, afinal? Porque tive que crescer? E surge aquela súplica, meio de olho fechado, meio de olho aberto admirando o relógio e sonhando em voltar no tempo: Me deixa ser criança só mais um pouquinho, nem que seja só por mais um dia?
        Descobrimos que trabalhar não é tão divertido, e nem tão melhor do que estudar. Descobrimos que os anos de escola acabam, e não, não são infinitos, eu também achava isso. Percebemos que o ensino médio, que parece durar uma eternidade, na verdade é um sopro e que da alfabetização para o terceiro ano é um pulo um pouquinho mais alto. Daí em diante, ah, o tempo corre e você nem se atreva a querer correr junto, seja maduro! Você não é mais criança e correr é coisa de criança. Nada de brincar de pique, ou comer tanto doce (tem que ter cuidado com a saúde), nada de xarope, comprimido é mais prático, tente arrumar tempo pro parque, pro circo e pros passeios e também pra trabalhar, cuidar da casa, fazer comida, mamãe e papai já não fazem mais tudo por você, talvez, infelizmente, a vovó e o vovô já não estejam mais aqui pra mimar o seu netinho. E agora é você pelo mundo, tentando ser adulto, com saudade da finada criança e tentando agarrar um pouquinho da esperança e alegria de uns anos atrás.